O caminho maniqueu

O estudo da essência do mal.

 
 
 
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MANI


Na Babilônia, sem Selêucia–Ctesifonte, no ano de 216, nasceu Mani.

Turfan - Centro espiritual dos maniqueus
- Deserto de Gobbi

Ctesifonte, que fora morada dos reis partas, às margens do rio Tigre, o de águas rápidas e apressadas entre as rochas do Ctesifonte, ponto de encontro das caravanas, onde mercadorias eram trocadas e conde cada povo agradecia a seus deuses por mais uma jornada concluída. Ctesifonte, às margens do Rio Tigre e suas tamareiras, foi a terra que Mani escolheu para nascer. Patek era seu pai e, mesmo antes que Mani nascesse, ele foi viver entre um grupo de religiosos que permanecia afastado do tumulto da cidade, em meio a um bosque de tamareiras. Mani nasceu coxo, mas o fato de mancar de uma perna jamais o impediu de andar pelo mundo, Quando completou 4 anos, o pai o levou para que crescesse na comunidade de religiosos, onde viveu por mais de 20 anos. A vida calma de trabalhos e orações transcorria mais serena que as águas do Rio Tigre, mas aos 12 anos de idade um anjo veio visitá-lo quando estava só – o anjo comunicou-lhe as mensagens do “Reio do Paraíso das Luzes” e lhe disse: 

- Mani, um dia deixarás esta comunidade e a muitos falarás sobre o Reino das Luzes. Apronta-te e espera.

Doze anos após a visita do anjo, Mani pediu permissão para deixar o bosque das tamareiras e os religiosos da comunidade, pois novamente o anjo o visitara, trazendo o aviso que chegara o momento em que deveria percorrer os caminhos do mundo e contar a muitos as mensagens do “Rei do Paraíso das Luzes”. E Mani foi à Índia em sua primeira viagem e tantos foram os que ouviram sua mensagem, que as caravanas que chegavam a Ctesifonte traziam notícias do homem nascido ali e que falava o todos sobre o Reino da Luz. E quando ele retornou da Índia, e novamente contemplou as águas rápidas do Rio Tigre, o Rei Chapur mandou chamá-lo, recebeu-o em sua pomposa corte e pediu-lhe uma narrativa de viva voz. Mani permaneceu humilde, sem se deixar impressionar pelo poder e luxo de Chapur, e brandamente narrou:

“Em eras passadas, quando contar tempo era tarefa para poucos, os acontecimentos se desenrolavam mansamente e sem sustos; mas um dia algo aconteceu. Dois reinos de grande envergadura eram vizinhos: O Reino da Luz e o Reino das Trevas; e chegou o dia em que os habitantes do Reino das Trevas quiseram se precipitar sobre o Reino da Luz – avançaram até a fronteira do Reino da Luz e queriam conquistá-lo. Porém não puderam medir forças com os defensores da Luz; foram derrotados e os invasores deveriam ser castigados. Mas no Reino da Luz não havia nada que fosse semelhante ao mal – só havia o bem. Então como impor um castigo aos invasores das trevas? Eles só poderiam ser castigados com algo bom. Então aconteceu: os seres do Reino da Luz pegaram uma parte do seu próprio reino e a mesclaram à matéria do Reino das Trevas. A preciosa porção lançada no Reino das Trevas foi o Homem, até então habitante da Luz.

Pelo fato de uma porção do Reino da Luz ter sido misturada ao Reino das Trevas, mudanças ocorreram, como o fermento muda a massa do pão. No Reino das Trevas surgiu um redemoinho que fez todas as coisas mudarem de lugar, e algo que jamais acontecera passou a ocorrer: a morte. Onde antes pairava a imortalidade, seres vivos vieram a perecer. E o Reino das Trevas passou a ter em si o germe de sua própria destruição, de forma que ele a si próprio constantemente se consome. E justamente por isso ter acontecido, surgiu o gênero humano. No Reino da Luz o Homem fora criado, era imortal e belo, portador de toda a bondade, e esse homem primevo foi justamente a parte enviada para misturar-se com o Reino das Trevas, onde a morte passou a existir, podendo assim por fim ao que era eterno naquele reino.”

O Rei Chapur ouviu Mani desta vez e de outras mais. Seu coração abrandou-se na doutrina ensinada. Vencer o mal dando porções de bondade era uma vitória que ele, tão experimentado em guerras e batalhas sangrentas, quis experimentar. Chapur fez anunciar a todo o reino dos Sassânidas que Mani era livre e seu protegido para viajar e ensinar em suas terras. Proibiu os magos de perseguirem os chamados hereges e declarou:

- Todos os homens de quaisquer religiões devem ser deixados tranqüilos e em paz com suas crenças nas várias províncias da Pérsia.

Todo o império ouviu falar de Mani e seus apelos para uma vida simples e cheia de bondade. Tal procedimento não haveria de deixar Katir tranqüilo. O horror pelo fato de o Rei Chapur ter acolhido Mani em sua corte, dando-lhe permissão para ir e vir à sua presença e com todos os caminhos livres, transformou-se em ódio. Por todo o Irão, até o extremo Oriente, Mani ensinou, e seguidores seus levaram sua mensagem a Bactriana (Afeganistão) e Egito.

Todos o ouviram dizer:

- Como um rio se junta a outro para formar um caudal poderoso, assim se acrescentaram os velhos livros às minhas escrituras; eles formaram uma grande sabedoria, tal como não houve nas gerações que nos antecederam.

No ano de 272 morreu Chapur, e seu filho Hormizd o sucedeu no trono. Também a ele, Mani e seus ensinamentos eram simpáticos. O Rei Hormizd, após receber Mani em audiência, renovou as cartas de proteção e a autorização para viajar para a Babilônia. Porém apenas um ano mais tarde morreu Hormizd, e seu irmão Bahram recebe o trono. Sob a influência de Katir, Mani é convocado à corte, para apresentar-se diante do rei. Ele comparece após uma viagem pelos locais onde viveu em sua juventude. Assim que chegou, o inflexível Katir o levou a julgamento, acusando-o de afastar súditos da religião oficial, o Zoroastrismo..

Esta entrevista diante do rei é ameaçadora, e Mani proclama que sua missão é divina. Bahram, cheio de cólera exalta-se sobre ele:

- Por que esta revelação divina foi feita a ti e não a nós, que somos os senhores do país?

Mani apenas respondeu:

- Tal é a vontade de Deus.

Depois de tal resposta foi condenado e levado a ferros e lançado na prisão. Três correntes nas mãos, três nos pés e uma no pescoço, o impediram de qualquer movimento. O peso de todo esse ferro lhe causou atrozes sofrimentos. Por vinte e seis dias suportou o martírio, e seus seguidores puderam vê-lo. Os algozes pensaram que a visão do martírio os desanimaria, mas na verdade os edificou e os fez mais fiéis. Mani morreu no ano de 277, com sessenta anos de idade.

Após a morte e a humilhação, o Rei Bahram ordenou a perseguição de todos os seguidores de Mani. Pensava-se que seus ensinamentos fossem desaparecer definitivamente, mas deu-se o contrário: por séculos as mensagens transmitidas de boca em boca, ou escritas, propagaram-se para o ocidente, até a Península Ibérica e para o oriente, até a China.

Kati permaneceu como chefe dos magos, ao longo de um reinado de mais quatro monarcas, tendo seu poder aumentado cada vez mais. Em 309 Chapur II assumiu o trono e passou a cobrar o dobro do valor dos impostos dos cidadãos cristãos, para financiar as intermináveis guerras nas fronteiras. Houve protestos por parte dos cristãos, e como represália, teve início uma impiedosa perseguição, que durou 40 anos, aos cristãos, judeus e outras religiões em minoria.

Por setenta anos governou Chapur II, impiedoso com seus oponentes. Teve o mais longo dos reinados sassânidas. Guerreou contra o povo do deserto da Arábia, e venceu-o ao encher seus poços com areia. Após debelar uma revolta em Susa, mandou seus elefantes esmagarem as ruínas da cidade. Lutou contra o Império Romano do Oriente, sediado em Constantinopla e invadiu várias vezes as planícies devastadas pela guerra da Mesopotâmia, onde em 359 derrotou um exército romano, comandado pelo imperador Constâncio. Chapur II conquistou o território da Armênia porém, nas fronteiras orientais, o Império Sassânida passou a ser ameaçado por novos inimigos, os terríveis hunos brancos. Estes eram nômades, criavam gado, mas também dependiam da caça para sobreviver. Buscavam novos campos para pastagem e caça.

Chapur II e os que o sucederam no trono, lutaram ainda por mais um século para defender as fronteiras persas, mas em 484 o rei sassânida Peroz foi derrotado e morto em batalha, e os sassânidas passaram a pagar tributos aos hunos brancos. Novos tempos, novos senhores. Um novo império foi estabelecido do nordeste da Pérsia ao Turquistão, na China, e os hunos brancos chegaram à Índia. Os determinados persas não desistiram e, por muitos anos, lutaram contra seus invasores e, por fim, depois do ano 500, a Pérsia foi reunificada. Templos, profetas e sacerdotes se sucederam e as palavras de Mani foram carregadas pelo vento, nos grãos de areia das dunas do deserto e na bagagem das caravanas.


Autor: Isabel C. F. Schievenin.
(Escola Waldorf Arcanjo Micael)

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